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Um Santeiro Sebastianista
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Por Rainer DaehnhardtImage
Belas, 14 de Julho de 2014

Reinava D. João II, a quem chamavam “PRÍNCIPE PERFEITO”, quando uma semente de uma árvore brotou. No princípio, era apenas uma plantinha que, no meio de ervas e folhas mortas, se levantava em busca do sol.

Enquanto a plantinha crescia, saíam embarcações lusas do Tejo, em cumprimento dos planos outrora traçados pelo Infante Dom Henrique.

Já era D. Manuel I o Rei de Portugal, e a nossa plantinha uma bela árvore, quando anualmente, saía uma armada com lusa gente. Procuravam terras longínquas, onde pudessem obter, por meio de trocas, especiarias, sedas, lacre de Martabão, porcelanas, plantas raras, tanto medicinais como decorativas e animais exóticos, para causar alegria ou espanto.

Criava-se o Mundo Português, espalhado por todo planeta. Gente sã, de boa cepa, que trabalhava com os povos que encontrasse, misturando-se e integrando-se, espalhando a sua fé com respeito pelas locais.

Chegou D. João III. Nunca tendo perdoado ao pai este ter-lhe tirado a noiva, desejou fazer tudo diferente. Rodeou-se de gente fanática e sem escrúpulos, contabilistas do lucro fácil e semeadores da desgraça.

Milhares de árvores foram abatidas para construção naval inadequada, porque as nossas madeiras não aguentavam mais de uma, no máximo duas viagens de ida e volta à Índia. O taredo das águas quentes, transformava belas naus em esponjas de naufrágio garantido. Mesmo o chapear dos cascos dos navios com cobre, como então se fazia, não era garantia suficiente. Optou-se, então, por construir as armadas lusas nos portos do Índico, perto das madeiras tão densas que o taredo não lhes podia causar dano.

Enquanto isso, as milhares de árvores cortadas em Portugal e vendidas à coroa com lucro fácil, começaram a apodrecer. Houve quem as aproveitasse para móveis. Muita sobrou, acabando por servir de lenha.

No meio das pilhas de madeira inutilmente cortada andou um santeiro, um escultor de imagens. Como Michelangelo Buonarotti, que andava nas pedreiras de mármore branco, na procura de um bloco que lhe agradasse para tirar dele o que estava a mais e permitir que nascesse uma daquelas esculturas que ainda hoje nos encantam, o nosso santeiro luso procurou um bloco de madeira que lhe permitisse exprimir nele os seu mais profundos sentimentos, alegrias, preocupações e lamentações.

D. João III já tinha perdido todos os seus filhos, incluindo o mais novo, pai de D. Sebastião (faleceu 18 dias antes do nascimento de D. Sebastião). O povo delegou toda a sua esperança futura neste pequeno Príncipe, denominando-o “O DESEJADO” e “O REI MENINO”.

Já nasceu órfão de pai. Sua mãe, a Princesa Joana de Portugal, saiu da corte de Lisboa, indo para Espanha, poucos meses após ter dado à luz, entregando o seu filho recém-nascido aos cuidados da avó, Catarina d'Áustria.

Muitas praças lusas norte-africanas, que tanto suor, lágrimas e sangue custaram para conquistar, já tinham sido abandonadas por D. João III, aconselhado pelos seus ministros financeiros, que apenas viam o “deve” e “haver”. Quem pensa assim ser “humano” não o é, porque basta saber que cada nascimento não é apenas uma promessa de vida, mas também uma sentença de morte. Pensando assim, mais vale optar pelo suicídio colectivo “insectoïde”, porque daqui nada se leva e nada se “ganha”.

D. João III instalou a Inquisição com o Tribunal do Santo Ofício, que não era mais do que uma organização fanática monopolista, que, ao dizer que queria o bem, também muito mal acabou por causar.

Era D. Sebastião menino, e sua avó Regente, quando o nosso grande porto de trigo africano, Mazagão, esteve em perigo de cair em mãos mouras.

PARA ÁFRICA SALVAR MAZAGÃO!” gritou o povo e foram em massa, sem organização ou preparação de espécie alguma, para ajudar os poucos valentes, que as muralhas desta fortaleza portuguesa contra uma aliança mourisca tão grande defendiam. Muitas embarcações lusas encontraram mesmo o caminho até Mazagão e chegaram no momento mais agudo, conseguindo salvar e render a guarnição.

Foi neste ambiente que D. Sebastião cresceu. Concordou com o povo de que era necessário salvar Portugal em África. Não concordou com o fanatismo religioso, ao ponto de se zangar com o seu tio e tutor, o Inquisidor-Mor, Cardeal D. Henrique.

O Povo Português viu em D. Sebastião a encarnação da esperança!

Muito erro cometeu mas AO MENOS TENTOU!

Quando veio a má nova da nossa derrota em Alcácer-Quibir e da perda de grande parte dos nossos, não se sabendo do paradeiro de alguns, ficou como um fio de seda, a esperança de que talvez D. Sebastião não tivesse morrido, que o Rei Menino voltasse.

Quem proclamasse publicamente tal hipótese, acabava na forca ou até no esquartejamento. Por isso, era preciso muito cuidado com o que se dissesse ou deixasse transparecer a quem e como!

O nosso santeiro andava no meio de tantos troncos cortados em vão! Um deles era o da nossa plantinha nascida no tempo do Príncipe Perfeito, quando Portugal ainda era Portugal, governando por portugueses e com futuro português à sua frente.

Encontrou um belo pedaço do tronco e levou-o consigo.

Agora, faltava “apenas” tirar a madeira que estava a mais e permitir que as suas mãos e ferramentas libertassem algo que simbolizasse muito do que o atormentava tão profundamente.

Tinha de ter muito cuidado com a forma de se exprimir porque de bufos e invejosos estava a praça cheia! O Santo Ofício chegou a atirar para os calabouços uma pequena rapariga que na sua ingenuidade se lembrou de fazer em barro uma figura de uma cabrinha. Acusada de fazer bruxaria e de chamar Satanás, serviu de exemplo a quem se quisesse exprimir livremente por criação artística!

Rezava todas as noites à Nossa Senhora e uma representação dela foi o que desejou criar. Mas tinha de ser diferente de todas as outras à sua volta. Tinha de ser aquela que tinha dentro de si.

Alcácer-Quibir deixou imensas viúvas e mães que perderam o seu filho. Todas ficaram na miséria porque lhes passou a faltar a fonte do seu sustento, o pilar das suas famílias e faltou-lhes aquele que mais querido lhes era, o seu amor incorporado!

Esculpiu a sua Nossa Senhora, em forma de uma mãe que segura o seu bebé, que se debruça sobre ele. Não com cara de alegria de qualquer jovem mãe, mas com um rosto que expressa profunda tristeza, algo nunca visto em representações de Nossas Senhoras com o Menino.

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É a mãe que segura o seu bebé, mas verga a cabeça com expressão de dor profunda porque sabe que o seu filho vai morrer.

Nada nos diz se o santeiro representa uma Nossa Senhora que recebeu do Anjo a boa nova acerca da sua escolha para mãe de uma criança com um destino tão especial, ou se representa uma mãe que ainda se lembra dos momentos felizes de ter tido o seu bebé nos braços, que entretanto cresceu e desapareceu em Marrocos.

Cobriu a cabeça e o corpo da escultura com manto e véu, que tanto podem ser interpretados como protecção do vento e frio, como para esconder as suas lágrimas e sentimentos mais íntimos.

Segura a criança com o braço esquerdo numa posição de protecção contra os perigos que a rodeiam.

O Menino-Jesus é representado de uma forma completamente diferente. Nada da tristeza e dos receios que a mãe transmite se podem encontrar no seu filho.

Este está bem rechonchudo, com cara sorridente e bochechas rosadas, a olhar com grande ternura para a mãe. Parece que está a dizer: “Não te preocupes mãe. No fim vai dar tudo certo!”.

Para além do contraste entre a tristeza da mãe e a alegria da criança, também se nota a diferença da firmeza de estátua da mãe em comparação ao corpo do bebé, que se está a mexer muito. Cara, mãos, braços, pernas, pés, tudo parece estar em grande movimento e a querer falar.

Como está comodamente deitado no braço protector da mãe, encontra-se perfeitamente à vontade. Enquanto olha e comunica à mãe uma expressão de sossego e força de convicção tem também algo de maroto. Sobretudo com os seus movimentos das mãos.

A mão esquerda (algo nunca visto) tem escondido atrás das suas costas, uma surpresa, que a mãe ainda não deve ver, o globo terrestre com a Cruz de Aviz.

A mão direita está estendida em direcção à mãe e pousada em cima da mão direita de Nossa Senhora. Nota-se que tem algo escondido na mão. Olhando com atenção, vê-se que se trata de uma pomba (uma asa é bem visível), ainda escondida dentro da mão com o pescoço e cabeça debaixo dos dedos da criança.

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Quando o Menino abrir os dedos, a pomba sair-lhe-á logo da mão. A mãe não o sabe, mas a criança marota está em vias de o fazer, e, como acto de surpresa, não apenas irá soltar a POMBA DO CULTO DO ESPÍRITO SANTO, mas também apresentar o GLOBO COM A CRUZ DE AVIZ.

Para o incauto, trata-se apenas de mais uma Virgem Com Menino, portuguesa, dos finais do século XVI, início do século XVII.

Para quem gostar de ver e compreender o que o santeiro nos quis transmitir temos:

- A Mãe, tanto de Cristo como dos Portugueses. Esta Mãe está em profunda dor, tanto com a tarefa de Cristo, como com os Portugueses.

- A Criança, tanto Menino Jesus como Rei Menino, mas sempre O DESEJADO, a consolar a mãe com alegria, convicção e inabalável Fé.

Pronto para largar a POMBA DO ESPÍRITO SANTO e fazer aparecer o Mundo Português, que parecia perdido, mas estava apenas escondido.

Não sabemos, nem creio que algum dia o venhamos a saber, o nome do santeiro escultor.

É porém com grande alegria que posso informar que a imagem ainda existe e que as suas mensagens foram compreendidas.

Andou durante décadas pelos antiquários lisboetas e foi parar à colecção de um piloto da barra de profissão e patriota com grande sensibilidade, que perante a leitura feita das mensagens do santeiro, achou por bem que a imagem integrasse o núcleo de esculturas do Museu-Luso-Alemão.

Estamos todos de parabéns. Principalmente o santeiro quinhentista, a sua sensibilidade, capacidade e coragem.

A sua mensagem foi compreendida e chegou a nós.

Cabe-nos agora tirar as conclusões!


Lido: 2040

  Comentários (3)
1. Escrito por João de Castro de Mendia, em 10-01-2017 17:36
Muito obrigado grande, enorme Rainer Daehnhardt.
2. Datação
Escrito por Norberto Pedroso, em 10-01-2017 17:35
Dois comentários: 
A expressão da Virgem, absolutamente extraordinária e invulgar, não me parece a de uma "Pietá", mas a de Nossa Senhora mergulhada num futuro que pode prever e tanto A entristece. 
Penso que o estilo e pose muito hierática desta imagem a coloca muito mais no início do séc. XVI que no final e também que se encontra muito repintada o que provavelmente também lhe retira muito da beleza original.
3. Um Santeiro Sebastianista
Escrito por João de Castro de Mendia, em 10-01-2017 17:14
Onde se encontra este museu e se se pode visitar esta Preciosidade?

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