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"Toda a Verdade passa por três fases.
Primeiro, é ridicularizada.
Segundo, é violentamente atacada.
Terceiro, é aceite como evidente"
Schopenhauer

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Roma está em chamas ou O Nero-liberalismo
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Fonte: Honigmann – 11 de Janeiro de 2013

Quando, na noite de 18 de Julho do ano 64, segundo o nosso calendário, Nero Cláudio César Augusto Germânico mandou transformar Roma num mar de chamas e acompanhou o espectáculo à lira com canções de sua autoria, terá atingido e gozado a dimensão de liberdade que naquela altura era imaginável.

Infelizmente, hoje, muitas pessoas partem do princípio de que Nero era louco, algo para o qual a magnífica interpretação de Peter Ustinov, no filme Quo Vadis, muito contribuiu.

Infelizmente, muitas pessoas continuam a partir do princípio de que só loucos e dementes poderiam querer incendiar o mundo, e por terem a certeza de conseguirem reconhecer tais monstros à primeira vista, só vêem em seu redor homens de bem com fatos caros que confirmam mutuamente as suas boas intenções, quando frente às câmaras de televisão apertam as mãos longamente ou, por vezes, se osculam na face.

Eles vêem que está tudo num mar de chamas – mas mesmo assim, continuam a tomar os homens que atiram dispositivos incendiários, um após o outro, por bombeiros, só por estes declararem em tom profundamente convicto que a gasolina é o melhor produto entre todos para extinguir fogos, não existindo nenhum produto alternativo, mas que, lá está, só após o incêndio dará para o comprovar. Afirmam que o mais importante é não diminuir o esforço de arranjar cada vez mais gasolina e, sobretudo, de encharcar profilaticamente com gasolina, com a ajuda de avionetas de combate a incêndios, também os bairros ainda não atingidos.

Um dos meus leitores pediu-me recentemente que definisse com palavras cativantes as teses fundamentais, as frases essenciais do neoliberalismo e que refutasse as suposições e axiomas que estavam na sua origem.

Respondi-lhe que isso seria um exercício tão inútil como tentar pregar um pudim na parede, dado o neoliberalismo se virar e voltar, na sua argumentação, conforme mais oportuno lhe parecia em cada situação. Além disso, o facto de o neoliberalismo estar baseado numa estreita amizade com o capitalismo também pouco teórico torna qualquer relação impossível e – talvez isto seja ainda o pior – que os capitalistas neoliberais gostam de se apresentar como descobridores e defensores da democracia, embora o seu instinto básico liberal, que não passa de egoísmo puro, lhes mande desafiar desdenhosamente, sempre que possível, democratas e decisões democráticas.

O estudo mais aprofundado da questão levou-me ao imperador romano Nero.

É claro que existe entre os historiadores uma discussão absurda e inútil sobre se Nero realmente contemplou a cidade em chamas com alegria ou se se afastou para bem longe do incêndio, por precaução. Discutem se ele mandou incendiar a cidade ou se o fogo lhe veio mesmo a calhar. Estas discussões alimentam professores e assistentes e agitam periodicamente especialistas e amadores interessados.

O facto é que Roma estava mesmo a arder

O rumor persistente que o próprio Nero atirara a tocha parece, pelo menos, tão credível como o boato persistente de que as Torres Gémeas do World Trade Centre de Nova York não terem sido derrubadas por aviões, mas por cargas explosivas cuidadosamente calculadas e nelas colocadas. Além disso, que um edifício no WTC também se desmoronou por pura simpatia, já que não fora atingido por nenhum avião.

E isto trouxe-me ao belo termo novo:

"Nero-liberalismo"

E à tentativa de encontrar uma diferença entre o liberalismo de Nero e o neoliberalismo tão elogiada actualmente.

Em relação ao neoliberalismo quero recordar uma entrevista que Milton Friedmann deu ao Spiegel poucos dias após a queda das Torres Gémeas e lembrar que Friedmann recebeu o prémio Nobel de Economia (o tal Prémio Nobel que não foi instituído por Alfred Nobel mas que, mesmo assim, pode usar o seu nome) pela sua absurda declaração que:

"…a iniciativa privada é geralmente estável, desde que não seja perturbada por acções do Governo".

Friedmann expressou nesta entrevista o conceito que edifícios derrubados não tinham qualquer importância, podiam ser erguidos de novo. O importante era fortalecer as Forças Armadas por serem mais importantes do que o Governo e as vitórias militares serem mais importantes do que o êxito das actividades civis. Contudo, ele não queria dar dinheiro ao Governo para a guerra porque, como pioneiro do neoliberalismo, procurava urgentemente enfraquecer o Governo, que considerava que só gastava e desperdiçava dinheiro.

Na mesma entrevista, quanto interrogado sobre a globalização, debate esse que hoje resignadamente já foi descontinuado, Friedmann respondeu cinicamente que a considerava um evento de pura diversão cheio de argumentos loucos, que acabaria antes de ter começado.

Nero – há cerca de 1.900 anos – já estava um passo em frente.

No seu liberalismo ilimitado, ele não levava a sério nem o Governo nem o Senado. E quem se lhe opusesse alto demais, era vítima de purgas.

Entre essas vítimas também se encontrava um seu antigo professor, o filósofo Séneca que ainda hoje é popular entre os neoliberais. Afinal, perante uma atenção selectiva e uma interpretação expediente, as suas opiniões podem ser entendidas como caminho para a arrogância e autocracia que justificam um pensamento e um agir Nero-liberal.

Vamos ficar com Nero.

Como enteado do Imperador Cláudio, Britânico, filho natural deste, e Nero eram rivais na sucessão ao trono. Quando Cláudio pensou numa partilha do poder entre Nero e Britânico, Agripina, mãe de Nero, mandou envenenar Cláudio.

O liberalismo viveu e morreu.

Totalmente imperturbado pelas acções do Estado, dado o “Estado” como superior instância legisladora e aplicadora da lei, há muito que, impotente, se rendera e submetera ao poder.

Mal o Imperador morreu, Nero foi proclamado Imperador.

Com uma regência inicial muito benévola e moderada conquistou a confiança do Senado e o apoio do povo.

Esta fase durou cerca de 5 anos.

Firmemente sentado na cadeira do poder, não tendo que temer mais nenhum concorrente sério, o seu carácter alterou-se.

Nero transformou-se na figura temida que recordamos das aulas de História. Como precisava de um inimigo exterior para desviar as atenções da sua culpa do incêndio de Roma, apresentou os cristãos como os verdadeiros culpados, e iniciou a caça sem precedentes e desumana aos cristãos que, devido à sua fé e sem qualquer hipótese de se poderem defender, ou eram queimados vivos ou atirados às feras no Coliseu, ou tinham de enfrentar gladiadores como “entrada” antes de estes terem de se matar.

O Nero-liberalismo é o salvo-conduto para o indivíduo procurar como sendo para si o objectivo útil e desejável, com todo o poder à sua disposição, e, não respeitando quaisquer leis ou direitos, enquanto não aparecer outro mais forte que imponha os seus interesses próprios, pelos mesmos meios.

O Nero-liberalismo é uma forma da lei do mais forte, revestida numa falsa legitimidade, sem decoro, sem regras, sem honra.

O Nero-liberalismo é crime que permanece impune sob a capa de um direito autocriado, autodestorcido e que pode ser necessário cometer contra a auto-imposta lei, com o argumento de inevitabilidade.

Apenas para mencionar Berlusconi, cujas relações com o Estado e com a Justiça demonstram desprezo, e que, mesmo assim, conseguiu várias vezes, (talvez consiga mais uma vez ainda) ser eleito apenas mediante as suas promessas, seria uma grande miopia.

Hoje já não existe a caça aos cristãos como aconteceu após o incêndio de Roma, por parecer prático, para desviar as atenções dos seus próprios crimes.

Também já não se perseguem os judeus, como aconteceu após o incêndio do Reichstag, a fim de poderem apresentar um “inimigo público” como bode expiatório.

Hoje, após o aço especial de que é feito o esqueleto dos arranha-céus, em Nova Iorque, se ter transformado milagrosamente em cinza, a caça ao homem é feito a milhares de quilómetros no ecran de jogos de computadores, com feedback real.

Os pixels em movimento no ecran serão talibans? É gente da Al-Quaeda? A decisão não é difícil, afinal, trata-se apenas de um monte de pixels.

Um pequeno movimento no joystick, um carregar do dedo a partir de uma confortável, inatacável e segura cadeira, e a morte avança, destrói edifícios, dilacera pessoas, homens, mulheres, crianças…

Só a descoberta e a nomeação desta imagem inimiga possibilitou o mundo livre – com uma esmagadora aprovação da população em questão – a defender o Hindu Kush, de fazer a guerra contra o Iraque, e fornecer tanques aos sauditas. (A lista está muito incompleta).

O neoliberalismo agarra o que pode, de acordo com os ensinamentos de Milton Friedmann, com força militar, enquanto ao mesmo tempo, o Estado se torna não fraco que vacila de um penhasco fiscal ao outro e fica dependente da impressora de notas de banco que se encontra em mãos neoliberais.

O que foi construído ao acaso e contra os interesses dos neoliberais, no estado social, desaparece de novo com a pressão exercida sobre o Presidente e o seu dilema se deve ceder ou declarar a falência.

Para enfraquecer o Estado ainda mais, ele é minado do interior ou o seu esqueleto de apoio é roubado, e é forçado a entrar num tanque que já não se pode conduzir de dentro, segundo aconteceu nos antigos Estados-nações da UE, ou, através de conversas contraditórias e sem alternativa, é forçado a ajudar as grandes empresas neoliberais que governaram de uma forma desastrosa, para proporcionar negócios rentáveis aos seus apoiantes, ajudaram com as despesas fiscais para poderem continuar os seus negócios sem problemas, por estes serem “demasiado grandes para falir”. E isto acontece ao mesmo tempo nos antigos Estados-nações da UE.

Se a Grécia deixa pessoas morrer de fome ou de frio, se há doentes que não recebem os medicamentos de que precisam por, devido a um ilimitado egoísmo Nero-liberal, lhes ter sido cortado o acesso a alimentos, aquecimento e medicamentos; se a Grécia deve desistir de grande parte dos seus bens públicos para não ser excluída da moeda única, criada para esta finalidade, que é que distingue isto das consequências produzidas pelo incendiar de Roma antiga e da perseguição dos cristãos? Que é que a distingue do gheto de Varsóvia?

A falta de guardas? O cerco? A ordem para atirar?

É um sofrimento sem fim e uma miséria terrível para as pessoas que já não são considerados irmãos, iguais, como pessoas livres pelos neo-Nero-liberais, mas apenas um obstáculo fácil de remover do seu caminho para dominar o mundo.

E isto na certeza de que no fim ainda vai restar o suficiente, até mais do que o suficiente, para lhes extorquir tudo o que for preciso.

Os Nero-liberais são realistas, racionais e pragmáticos para os quais a sua liberdade tudo significa, mas a vida e a liberdade dos outros não tem qualquer peso.

Os Nero-liberais empregam torturadores para espalhar o terror e para, de vez em quando, extorquir um segredo a um preso, algo que lhes permite fazer o próximo golpe com o mínimo de esforço.

Os Nero-liberais empregam mercenários por acharem mal-empregado envolver os seus próprios filhos.

Os Nero-liberais usam as pessoas como quem usa lenços de assoar. Primeiro colocam-nos como enfeite no seu casaco e pensam que lhes estão próximo do coração. Depois, todos sujos, são atirados fora.

Os Nero-liberais enfatizam a responsabilidade do indivíduo e apenas querem dizer com isso que eles próprios negam qualquer responsabilidade para com os outros.

Os Nero-liberais exigem do Estado uma infraestrutura perfeita, subvenções, isenções fiscais e leis relevantes – e ameaçam com a perda de postos de trabalho, caso não recebam o que querem – e também ameaçam, provavelmente, com a perda de boa vontade, sobretudo com o desaparecimento de doações partidárias e de subornos, especialmente refletido na cobertura dos media.

Quem exultou Guttenberg e depois o deixou cair?

O povo? Sim, também exultou e caiu, mas sem a imprensa Guttenberg jamais teria subido e nunca teria caído tanto e tão rapidamente.

O seu trabalho foi transformar as forças armadas num exército de cidadãos de uniforme num exército profissional. Foi o que ele fez. Para o que viria mais tarde, pareceu para os Nero-liberais ou muito mole ou muito inteligente ou muito bonito ou mal-empregado.

De Maiziere sabe melhor, faz melhor, marcha mais firme.

Pergunta: (Pergunta de algibeira?)

Quem governa a Alemanha?

Barroso?

Draghi?

Van Rompuy?

Lagarde?

Merkel?

Schäuble?

Obama?

Ackermann?

Bertelsmann?

Goldman-Sachs?

O GE na Alemanha?

Pergunta:

Quem dos acima mencionados é eleito pelo Parlamento Europeu, é mandatado e controlado?

Quem dos acima mencionados encomenda as leis e decretos convenientes junto da comissão da UE?

Quem dos acima mencionados determina quais as leis o Parlamento Europeu pode discutir?

Pergunta:

Quem dos acima mencionados se preocupa minimamente com os tratados de Maastricht?

Pergunta:

Faça uma ordem de classificação: Quem tem/teve mais poder?

O Senado romano em relação a Nero?

O Parlamento alemão em relação a Merkel?

O Parlamento Europeu em relação ao FMI?

O Parlamento grego em relação à Troika?

O eleitorado alemão em relação ao ESM?

Reina a anarquia dos Nero-libérias, a acção governamental no sentido original da palavra já não é detectável. Em quase todo o mundo, o Estado transformou-se em servidor da estabilidade do sector privado. O Prémio Nobel de Friedmann…

Roma está em chamas.

A Europa está em chamas.

O mundo está em chamas.

E embora – não! Porque...! Porque está tudo a arder, o actual fosso entre ricos e pobres se torna cada vez maior.

Isto é Neo-Nero-Liberalismo.

No tempo de Nero ainda havia o sentido do bem e do mal.

Quando o sentido de injustiça tomou a mão de cima, houve homens que se atreveram a conspirar contra o Imperador.

Enquanto tentava fugir para o Egipto, Nero recebeu uma carta do Senado na qual ele era declarado inimigo do povo e o convidavam a suicidar-se.

A diferença está em que hoje ninguém sabe a quem a carta deveria ser endereçada, que não há instância alguma que teria a coragem de a escrever e enviar, e que o recipiente - caso fosse possível encontrá-lo e que houvesse uma instância que o convidasse a suicidar-se – perante isto, espetasse um punhal na garganta, tal como Nero fez outrora. Provavelmente, com um grande gesto e promessas de vingança, enfiaria a carta na trituradora.

L'État, c'est moi!

(O Estado, sou eu!)

 

A liberdade precisa de limites.


Para desenhar e proteger essas fronteiras

é preciso o Estado


O Estado como instituição que serve

para manter a população

e protegê-la da ocupação

de interesses individuais

precisa, dia após dia,

de cidadãos despertos e corajosos.


Na realidade, cada povo

tem o Estado e o Governo

que merece.


Nós também.


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