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"Toda a Verdade passa por três fases.
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Schopenhauer

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Vamos leiloar novamente ceroulas do inimigo?
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Por Rainer Daehnhardt

Quando os ventos de eventuais guerras sopram, voltam as memórias de outras já havidas. Será que alguém aprendeu com as amargas lições do passado? Não parece! Por isso mesmo, aqui vão alguns pormenores, que dão para pensar.

As razões para entrar em guerra, devem-se, muitas vezes, a alianças políticas. Os povos nada têm uns contra os outros, mas são obrigados a digladiarem-se até à morte, por causa de documentos outrora assinados, por alguém que já nem existe e em circunstâncias bem diferentes das actuais.

Por exemplo, vejamos o ano de 1914. As alianças de então colocaram Portugal e a Alemanha em lados opostos. Porém, nem uma nem a outra nação se mostraram interessadas em envolver-se. O nervosismo da situação até provocou distúrbios no sul de Angola e no norte de Moçambique, onde fronteiras, pouco sinalizadas, com os vizinhos Protectorados Alemães, conduziram a confrontos. Estes poderiam facilmente ter originado declarações de guerra. Mas não! Foram sanados e postos de lado. Nem Portugal nem a Alemanha queriam a confrontação militar.

Esta só se deu a partir de 1916, em consequência do arresto de 72 navios alemães ancorados em portos neutrais lusos. Em Portugal ensina-se que foi a Alemanha que declarou guerra a Portugal; na Alemanha, que foi Portugal que declarou a guerra! Hoje, não há dúvida, de que Portugal entrou nesta guerra por causa da sua aliança com a Grã-Bretanha e a França. A "desculpa", dada na altura, foi a de que Portugal necessitava desses navios para as suas ligações às colónias, o que não corresponde à verdade. Os navios não entraram neste serviço. Foram vendidos (por uma bagatela), à Grã-Bretanha, que, na mesma altura, adquiriu a frota grega, de qualidade muito inferior, por um valor (por tonelada), muito mais elevado!

De repente, Portugal deu-se conta de que teve de declarar como "inimigos", milhares de cidadãos estrangeiros, radicados entre nós há décadas, em alguns casos, há séculos até!

Foram-lhes dadas 48 horas para saírem do país. Quem não saísse, seria preso e transportado para campos de internamento. O principal campo em Portugal Continental foi o Forte de Peniche. Nos Açores, a Fortaleza de Angra. O respectivo carimbo de correio dizia mesmo: "ALEMÃES CONCENTRADOS". Houve outros campos portugueses nos outros arquipélagos e territórios ultramarinos.

Costuma-se dizer que é nos tempos difíceis que se cristaliza nos homens tanto o mal como o bem. Foi precisamente isso o que então aconteceu. Uns mostraram humanismo e ajudaram onde era possível; outros lançaram-se como abutres para se apoderarem dos bens dos perseguidos.

(Sem mais comentários, publicam-se aqui apenas alguns dos muitos anúncios e artigos então saídos na imprensa portuguesa, que nos dão um pouco de luz sobre o que aconteceu. Clique nas imagens para aumentar). 


    

Não havia rancor entre portugueses e alemães, apesar de alguns dos aliados bem insistirem nos "tambores" de propaganda para os instigar!

Até ás décadas de 50 e 60 do século passado, recrutavam-se os guardas do Museu Militar de Lisboa, entre os veteranos da Grande Guerra. Muitos gostavam de mostrar a peça mais emocionante na sala da "sua" guerra: uma cruz simples, em madeira, retirada de uma das trincheiras da batalha de La Lys. Era a cruz de uma campa de um soldado de nome desconhecido. Mostra a inscrição em alemão: "Hier ruht ein tapferer Portugiese" (AQUI JAZ UM VALENTE PORTUGUÊS).

Image

Maça de armas. Trabalho de trincheira da 1ª Guerra Mundial. (Museu Luso-Alemão)

O reconhecimento da bravura lusa pelo adversário, também se encontra nos relatos alemães desta batalha. Em muitas trincheiras, só se havia distribuído seis balas a cada soldado português (casos houve em que apenas receberam três)! Tal não significava a desistência da luta. Muitos portugueses pegaram nas suas espingardas e usaram-nas como no jogo do pau. Este pormenor, mencionado num relatório alemão, foi reconfirmado pelos guardas do Museu Militar, que, espontaneamente, também referenciaram terem sido melhor tratados quando prisioneiros de guerra do que quando combatentes, ao lado dos aliados.

A batalha de La Lys é relembrada anualmente frente ao monumento da Avenida da Liberdade. Porém, não se faz qualquer referência á atitude de abandono dos aliados em relação aos portugueses. Os relatórios alemães contam que encontraram na sua grande ofensiva apenas os soldados portugueses nesta zona. As forças britânicas e francesas, que deviam combater ao lado dos portugueses, tinham-se retirado. Certamente serviram-se dos aliados portugueses como "isco", na esperança de que os alemães os cercassem, o que então permitiria um eventual cerco lançado pelos aliados. Os alemães, porém, avançaram em linha recta. O resultado foi o mais sangrento encontro entre lusos e germânicos numa guerra, que nem lhes dizia respeito! Esta tinha começado com o assassinato do Príncipe Herdeiro do trono Áustro-Húngaro e da sua mulher, em Sarajevo, por anarquistas sérvios. As alianças políticas então existentes mergulharam a Europa num conflito causador de 18 milhões de mortos e com consequências de tal modo negativas, que despoletaram também a 2ª Guerra Mundial.

Surge inevitavelmente a pergunta: o que havemos de fazer se a situação se repetir? Haverá consciência da quantidade de estrangeiros classificáveis de "inimigos", que se encontram em território nacional? Ser-lhe-ão dadas outra vez 48 horas para saírem? Serão os seus bens leiloados, como outrora o foram? Quantos casamentos mistos estarão em causa? Quantas crianças já aqui nascidas ficarão sem pátria? Será humano ordenar-se o regresso a dezenas de milhares, cujos países estarão então na iminência de ataques nucleares? Haverá políticos cientes de que, de momento, temos mais ex-soldados do Pacto de Varsóvia a residir e trabalhar em Portugal do que temos soldados portugueses em serviço?

Salazar ainda soube manter Portugal fora da 2ª Guerra Mundial porque soube colocar a Pátria no cimo das prioridades. O monumento a Cristo-Rei, em Almada, foi erigido em cumprimento da promessa das mães de Portugal, como agradecimento por a Nação ter ficado de fora deste conflito.

Quando os ventos de guerra sopram devem-se pesar bem as consequências antes de se tomarem decisões. Precipitações podem ser fatais!


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  Comentários (1)
1. Sobre o texto acima
Escrito por Maria, em 15-04-2008 15:15
Como sempre, mais um texto impecável. Parabéns novamente ao autor. 
 
Maria

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