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"Toda a Verdade passa por três fases.
Primeiro, é ridicularizada.
Segundo, é violentamente atacada.
Terceiro, é aceite como evidente"
Schopenhauer

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A Vida a Crédito
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por Flávio Gonçalves

ImageTendo nascido e crescido numa comunidade dita tradicional em que a população se auxilia – não raras vezes recordo chegar a casa e encontrar sacos de laranjas, batatas ou outros excedentes das colheitas dos vizinhos e de ir entregar a vizinhos ou a pessoas menos abonadas da minha freguesia os excedentes das colheitas da minha família –, creio que não me encontrava preparado para a vida urbana – em 5 anos a viver em Lisboa não conheço os nomes de quase nenhum dos meus vizinhos – nem para negociações de empréstimos, tão habituado estava a lidar com pessoas bem intencionadas.

Há quase dois anos efectuei um empréstimo e garanto-vos que a minha vida, desde então, nunca mais foi a mesma. Sinceramente não sei porque perdi alguns meses a negociar um empréstimo, acordando com o banco a quantia que o meu ordenado me permitia pagar mensalmente em troca de um crédito à habitação. Considero que foi perda de tempo uma vez que logo alguns meses depois, por decisões do BCE, as taxas de juro começaram a subir e nunca mais pararam e depois de negociar para conseguir obter uma quantia que eu pudesse pagar, a prestação atinge já montantes proibitivos para a manutenção do meu empréstimo.

Não fui o único, vários amigos e amigas aproveitaram a facilidade dos empréstimos para a obtenção de casa própria, todos eles – como eu – actualmente se arrependem do que fizeram. Recordo uma frase do filme americano “Clube de Combate”: “As coisas que possuímos acabam por nos possuir.”; Só agora senti o quanto isso pode ser verdade. A minha geração vive refém dos objectos que adquiriu (sejam uma casa, uma viatura ou até mesmo um empréstimo ao consumo, coisa muito em voga e promovida em todos os jornais, televisões e rádios).

Creio que não muitas pessoas perceberão o estado servil em que nos colocamos quando nos endividamos, principalmente em situações de crise financeira como a actual. Tenho testemunhado ao atropelo de direitos de vários colegas e amigos, horas extra que não são remuneradas, pequenos serviços que se fazem a pedido dos chefes sob a ameaça de existir uma abundância de mão de obra realçando quão facilmente se poderá ser substituído caso não se cumpram as directivas, coisas que, pelo menos eu como homem livre, não toleraria.

As pessoas vivem escravas do seu crédito, caladinhas e obedientes nos empregos e fora deles, já que os rebeldes são olhados de lado, relegados ao ostracismo e despedidos. Perdem-se direitos adquiridos ao longo do tempo, cria-se uma cultura de medo com o receio constante de não conseguir liquidar a dívida, perder um emprego actualmente significa um risco muito real de perder também a habitação. Esta cultura de medo é transmitida de pais para filhos, ninguém arrisca, mais vale pouco e certinho, nunca falhar a prestação ao banco.

Vivemos a crédito e acabamos por não viver.


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